Priscilla Kellen: Da Unesp Bauru à Berlinale

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Priscilla Kellen é diretora de Papaya, filme que conquistou um feito inédito, sendo o primeiro longa de animação brasileiro a integrar a Berlinale, na Alemanha.

A Unesp Bauru recebe gente do Brasil todo para estudar. Foi o caso de Priscilla Kellen, que veio à Bauru jovem para cursar Desenho Industrial. Nesse bate-papo, ela relembra um pouco da passagem pela cidade e a influência artística e criativa que faz parte da formação dela até a sua estreia como Diretora.

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Você foi estudante do curso de Design Unesp de Bauru. Como a formação no curso influenciou na sua carreira na animação e no cinema?

Sem dúvida foi uma fase riquíssima de aprendizados. O curso de Design da Unesp com sua grade curricular bem abrangente, da qual destaco História da Arte, Semiótica, Plástica, Fotografia e Antropologia, foi fundamental na formação do meu olhar e repertório imagético, que evidenciou-se ainda mais na disciplina de Técnicas de Animação, que nos permitia muitas experimentações dentro e fora dos laboratórios de fotografia e edição de vídeo.

Toda essa transdisciplinaridade do curso, bem como a vivência dessa fase na Universidade reforçou minha visão política e senso crítico, me instigando a querer me expressar através do audiovisual.

Qual a sua relação com a cidade? Tem algum canto de Bauru que você gostava muito de ir?

Eu fui para Bauru aos 17 anos após passar no vestibular para Desenho Industrial na Unesp. Até então não conhecia ninguém na cidade. Morei em várias repúblicas de estudantes durante o período da graduação até o ano de 2003. Na faculdade fiz grandes amigos com os quais mantenho o contato até hoje, mesmo não morando mais em Bauru.

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Você se recorda de espaços culturais, eventos, projetos artísticos, coletivos ou movimentos da cidade, que tiveram alguma influência na sua formação?

Frequentava bastante o Sesc, o cinema e o teatro. Eu ficava sabendo dos eventos através dos meus amigos estudantes de Relações Públicas, Jornalismo e Design, que faziam estágio no setor cultural. Além, é claro, das festas em repúblicas de estudantes, onde algumas eram também casas de amigos músicos de bandas como a Mercado de Peixe. Tudo à nossa volta transbordava questionamento, arte e criatividade!

Em sua época na cidade de Bauru, qual comida você mais gostava?

Adorava os pastéis e caldinhos que eram vendidos nos bares, os salgados do centro da cidade e os doces da padaria Copacabana. Eu também gostava muito do almoço da cozinha experimental do Sesi, que além da qualidade excepcional era super barato! Mas o que eu mais gostava mesmo eram as refeições que preparávamos entre amigos.

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Você trabalhou na produção do “O Menino e o Mundo”, que concorreu ao óscar em 2016 na categoria Melhor Animação. Qual era a sua função no filme e como foi essa experiência?

Em “O Menino e o Mundo” eu fui assistente de direção e coordenadora artística, ou seja, trabalhava diretamente com a equipe de arte, animação e pós, fazendo a ponte entre os profissionais e a direção, e também com a produção.

Minha principal incumbência era transmitir o dogma do filme à equipe, a fim de que os desenhos ficassem no estilo dos traços do diretor Alê Abreu, garantindo a característica autoral da direção de arte e animação dele.

Foi uma experiência incrível, na qual pude colaborar criativamente na viabilização do projeto e aprendi no dia-a-dia os meandros da produção de um longa animado no Brasil. Em 2016, quando “O Menino e o Mundo” foi indicado ao Oscar, pessoas de todo o país colaboraram com a campanha no Catarse que possibilitou nossa ida a Los Angeles.

Foi um grande frenesi! Mas o reconhecimento dos bauruenses ao filme já tinha acontecido 2 anos antes, em 2014, quando o filme foi convidado do 2º Anima Bru, ocasião em que tive o prazer de voltar à cidade para conversar com o público após as sessões.

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A sua carreira tem produções como “Garoto Cósmico (2007)”, a série de TV “Vivi Viravento” (2017) e recentemente escreveu e dirigiu “Papaya (2025)”, seu primeiro longa-metragem. Como você se sente hoje com a repercussão e quais desafios você conseguiu superar na produção?

Após 7 anos de produção, posso dizer que entre os maiores desafios, no desenvolvimento, foi contar a história através de uma narrativa fluída e clara, apesar de não-verbal e, ao longo da produção, após ter definido a proposta estética, outra dificuldade era manter a coerência e o frescor na direção de arte ao longo dos 75 min do filme, com seus mais de 500 cenários feitos por vários artistas diferentes.

Estou muito contente com o resultado que conseguimos e com a repercussão do “Papaya”, que já foi selecionado para quase uma dezena de festivais e mostras, onde tem sido muito bem recebido pelo público e pela crítica.

Você esteve recentemente no Berlinale (Festival de Cinema de Berlim), como foi a experiência de levar o nome do Brasil para o exterior e a recepção do público internacional para uma obra brasileira?

Como não é muito comum os festivais de cinema selecionarem longas em animação para suas competições, e ainda mais que nunca antes um longa animado brasileiro havia sido competido no Berlinale, então a notícia da seleção de “Papaya” para a mostra Generation já foi em si uma grande surpresa e alegria! Poder estar lá e ver o filme ser exibido em sessões de cinema lotadas, e ao final ouvir os relatos emocionados e responder as perguntas do público, foi uma honra imensa e uma grande realização.

Confira as fotos da participação de Priscilla Kellen (Diiretora) e Letícia Friedrich (Produtora) pelo link

Como você avalia o cenário do cinema de animação brasileiro na atualidade? Quais os caminhos que podemos desenvolver para potencializar essa área?

Temos profissionais extremamente competentes em animação no Brasil, e o perfil criativo é um diferencial que destaca nossos talentos no mercado internacional. Há pouco mais de uma década havia uma grande expectativa de que o setor da animação se desenvolveria muito, tanto para cinema quanto séries de tv. Porém, para que isso aconteça, precisamos de investimentos com uma constância maior e de políticas públicas, como cotas de tela para produções nacionais nas salas de cinema e streaming, que protejam a produção cultural, viabilizando as empresas e trabalhadores da animação a se manterem em atividade.

O Cinema é um trabalho muito coletivo. Como foi trabalhar com tanta gente ao mesmo tempo, você conheceu todas presencialmente?

A produção do Papaya foi quase integralmente remota, o que demandou muita organização e planejamento de todos os envolvidos. As orientações eram passadas por vídeo ou documentos-guia, assim como os pedidos de ajustes nos processos de aprovação. Porém alguns encontros pontuais foram essenciais, especialmente na fase de desenvolvimento, na concepção do storyboard e, ao final da produção, com a diretora musical Talita Del Collado, edição de sons e vozes no estúdio Submarino Fantástico e na montagem com a Elaine Steola.

Quais os próximos passos com o seu novo filme “Papaya”, quando os bauruenses e brasileiros poderão assistir nas telonas do Cinema?

O filme está em fase de negociações pelos nossos agentes de vendas da BFF (Best Friends Forever Sales), e já tem distribuição na França pela Gebeka e no Brasil pela Cajuína Audiovisual. Teremos ainda alguns meses de exibição exclusiva em festivais antes que o filme entre em cartaz no circuito comercial. Espero que muito em breve “Papaya” possa colorir as telonas dos cinemas de Bauru e de todo o Brasil.

Sobre o filme “Papaya”

Papaya – Brasil – Animação – 74 min – Livre -Direção: Priscilla Kellen

Apaixonada pela ideia de voar, uma pequena semente de mamão precisa continuar se movendo para evitar enraizar-se. Perseverante, ela descobre o poder de suas raízes, que conectam a vida por caminhos profundos e misteriosos, e desencadeia uma grande revolução, transformando seu ambiente e realizando seu sonho da forma mais inusitada.

● Empresa produtora: Boulevard Filmes

● Produtores: Letícia Friedrich, Lourenço Sant’Anna, Priscilla Kellen, Alê Abreu

Produção Executiva: Letícia Friedrich

● Co-produção: Birdo Studio, Alê Abreu Priscilla Kellen

● Roteiro: Priscilla Kellen

● Montagem: Elaine Steola

● Direção de arte: Priscilla Kellen

● Desenho de som: Submarino Fantástico

●Edição de som e Mixagem: Submarino Fantástico

●Trilha sonora: Talita Del Collado

●Elenco: Aretha Garcia, Tulipa Ruiz, Maria Vitória Garcia

Sobre a Diretora Priscila Kellen

Priscilla Kellen é diretora e artista com uma carreira multifacetada que abrange cinema, televisão e ilustração. Faz sua estreia na direção de longas-metragens com “PAPAYA”, após ter dirigido anteriormente a série de TV “Vivi Viravento” (Discovery Kids / Mixer / TV Cultura, 2017). Graduada em Design Gráfico pela Unesp, traz uma forte sensibilidade visual para o seu trabalho, com experiência em design, animação e ilustração para cinema e mercado editorial. Suas contribuições criativas incluem a ilustração de conteúdos infantis para a Editora Positivo, Folha de São Paulo, além de ser coautora do livro “Mas será que nasceria a macieira?” (Ed. FTD), em colaboração com o aclamado diretor Alê Abreu. Com 15 anos no estúdio Filme de Papel, atuou anteriormente como Assistente de Animação no longa “Garoto Cósmico” (Alê Abreu, 2007) e como Coordenadora Artística e Assistente de Direção no premiado “O Menino e o Mundo” (Alê Abreu, 2013), indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2016.

A Boulevard Film

A Boulevard Filmes, empresa produtora e distribuidora com mais de dez anos de atuação, possui um vasto portfólio de projetos de documentário, ficção e animação. Dentre os principais filmes encontram-se: “Amor, Plástico e Barulho”, de Renata Pinheiro (Indie Lisboa 2014), “Açúcar” (IFFR- Festival Internacional de Cinema de Rotterdam 2018), de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira e os documentários “Libelu – Abaixo a Ditadura” (Melhor Filme Festival É Tudo Verdade 2020), de Diógenes Muniz e a animação “Papaya”, de Priscilla Kellen.

Para o segmento de televisão, produziu o telefilme de ficção “Guigo Offline” (vencedor do Mix Brasil 2017 e indicado ao Prix Jeunesse 2017), de René Guerra e os telefilmes documentário “Arte da Diplomacia” (Mostra Brasil da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo; Festival do Rio 2023; 11º FIDBA – Festival Internacional de Cine Documental de Buenos Aires), de Zeca Brito e “Por onde anda Makunaima?” (42º Festival de Havana; Melhor Filme do 53º Festival de Cinema de Brasília; Melhor Filme Documentário do 25º Inffinito Brazilian Film Festival), de Rodrigo Séllos, ambos para o Canal Curta!.

Sobre a Cajuína Audiovisual

A Cajuína Audiovisual nasceu para fortalecer a diversidade na distribuição do cinema brasileiro, ampliando a representatividade das muitas culturas e histórias do país. Com sede em Salvador, Bahia, nossa missão é impulsionar a circulação de obras independentes por meio de estratégias de mobilização. Desde 2023, distribuímos títulos como Saudade fez morada aqui dentro, Parque de Diversões, Sede de Rio e Samuel e a Luz. Siga: @cajuinaaudiovisual

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