Projeto coletivo na Aldeia Kopenoti fortalece tradição milenar, une gerações e devolve identidade cultural ao povo Terena.

O resgate da cerâmica ancestral tem se tornado símbolo de identidade, memória e cura na Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, em Avaí. Mais do que uma atividade artesanal, o projeto coletivo vem promovendo a reconexão do povo Terena com uma tradição histórica que, por muitos anos, permaneceu adormecida, além de proporcionar bem-estar e fortalecimento espiritual à comunidade.
O cacique Chicão Terena destaca que a iniciativa representa um marco para a aldeia ao aproximar anciãs, jovens e crianças de um saber ancestral que faz parte da essência do povo.

“Esse projeto tem uma importância muito grande para a comunidade. Ele traz o resgate da nossa ancestralidade e da prática cultural do trabalho com a cerâmica do povo Terena. Envolve as anciãs e a juventude, fortalecendo o convívio comunitário e a nossa espiritualidade”, afirmou.
Segundo o líder indígena, o contato com a argila vai além da produção das peças e simboliza uma ligação profunda com a natureza e com os antepassados.
“A argila vem da terra, da natureza. Esse contato com o barro nas mãos traz uma espiritualidade muito forte, porque remete à ancestralidade e à nossa história”, disse Chicão.
Tradição adormecida volta a ganhar vida
O artista plástico e historiador indígena Irineu, idealizador do projeto, conta que o reencontro com a cerâmica foi também um reencontro com sua própria identidade como Terena.

“Eu comecei a fazer cerâmica para tentar iniciar esse resgate da nossa cultura, mas sentia que faltava alguma coisa. Quando fui ao Mato Grosso aprender as técnicas ancestrais com as oleiras, entendi que a minha cerâmica ainda não era Terena. Voltei e recomecei tudo”, relatou.
A partir dessa experiência, Irineu passou a desenvolver oficinas dentro da aldeia com o objetivo, segundo ele, não de ensinar, mas de despertar um conhecimento já existente nas mulheres da comunidade.
“Eu falei para elas: eu não vim ensinar nada, eu vim despertar aquilo que vocês já sabem. Isso é de vocês. A cerâmica é uma tradição feminina do povo Terena”, explicou.
O projeto também ganhou um espaço próprio com a construção de uma oca, erguida para sediar as atividades e fortalecer o convívio coletivo.
Cassiano Sebastião, um dos responsáveis pela estrutura, explica que a ideia surgiu justamente da necessidade de criar um espaço voltado ao resgate cultural e ao fortalecimento da comunidade.

“No meu pensamento, esse quiosque foi construído para reunir o povo, as crianças, e resgatar a nossa cultura e os nossos costumes. Eu vejo que as crianças estão mudando muito e esquecendo a língua e a tradição. Esse espaço vai trazer ensinamento para eles”, afirmou.
Segundo ele, o local também tem sido utilizado para atividades de valorização da língua Terena e de outros saberes tradicionais.
“Nós, que somos mais velhos, ficamos preocupados com os jovens. Não pode acabar a nossa língua, os nossos costumes”, acrescentou.
Cerâmica como cura e memória
Um dos relatos mais emocionantes veio de dona Nercidea Pio, de 86 anos, que atribui à cerâmica sua recuperação de um problema de saúde.
Segundo ela, no dia em que chegou ao espaço do coletivo, estava debilitada, sem forças e sofrendo com dores e tonturas.
“Eu cheguei aqui muito doente, bem fraca. Fiquei sentada só olhando. Aí minha filha me chamou para fazer. Quando peguei no barro e comecei a moldar, minha dor parou. Desapareceu. Isso aqui me curou”, contou.

A anciã afirma que, desde então, recuperou a disposição para realizar as tarefas diárias.
“Cheguei em casa com coragem para fazer meus serviços. Aquela tontura e aquela dor sumiram tudo. Hoje estou curada”, disse emocionada.
Para Irineu, o relato reforça o poder simbólico e terapêutico do projeto.
“A cerâmica trouxe cura, trouxe alegria e despertou memórias que estavam guardadas. Ela faz a pessoa se sentir útil novamente, fortalece o espírito e resgata histórias que não estavam mais sendo contadas”, afirmou.

Na aldeia, o projeto já reúne mulheres de diferentes idades, netas, filhas e bisnetas, fortalecendo a continuidade da cultura Terena.
A integrante do coletivo Osnita Machado, também destaca a importância da transmissão do conhecimento para as novas gerações.
“É muito bom para a gente aprender esse trabalho que nunca tinha feito. E é importante passar para os mais novos, para que não se perca”, disse.

Ela conta que, ao trabalhar com a cerâmica, sente-se conectada à própria ancestralidade.
“Eu me sinto bem. Gosto muito de fazer. A gente sente que está ligado aos nossos antepassados”, relatou.
Daniela Araújo da Silva Machado, que participa das atividades ao lado da filha e da mãe, ressalta que o espaço tem se tornado um local de cura e fortalecimento familiar.
“Minha mãe está aprendendo agora, eu estou aprendendo e minhas filhas também. São três gerações juntas. Isso é a continuidade da nossa cultura e dos nossos saberes”, afirmou.

Para ela, o processo de moldar a argila também funciona como uma experiência terapêutica.
“Quando a gente está amassando o barro, é um momento só nosso e do barro. É um processo de cura. Você coloca ali os sentimentos, as emoções, e vai transformando tudo em peça. É muito terapêutico”, disse.
Daniela ainda compara as etapas da cerâmica ao próprio ciclo da vida.
“Tem o tempo de preparar, moldar, alisar, pintar e depois a queima. É como a nossa vida: tudo tem um processo e exige paciência para chegar ao resultado final”, completou.
Para Chicão, a retomada da cerâmica é também uma forma de resistência diante das influências externas e do risco de apagamento cultural.
“Estamos muito próximos dos centros urbanos e isso acaba influenciando. Muitas vezes a cultura fica adormecida. Por isso, esse resgate é fundamental para manter nossa língua, nossos costumes, a tradição e o modo de vida do nosso povo”, afirmou.

Ele ressalta que iniciativas como essa ajudam a reafirmar a existência e a força dos povos originários.
“É uma cultura milenar que não pode se perder. O povo Terena segue lutando para manter suas origens vivas”, concluiu.
Essa matéria foi criada por Priscila Medeiros, que foi visitar a Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena de Araribá, no município de Avaí/SP. Em diálogo com os participantes das oficinas, a liderança indígena Chicão e o artista plástico e historiador Irineu, que transmitiram os objetivos desse resgate da cerâmica e a importância cultural e de bem viver proporcionados por essa retomada no território indígena.
A matéria foi criada para celebrar o Dia dos povos originários, celebrado todo ano dia 19/04.
Contatos
Priscila Medeiros é jornalista da área cultural. Contato para pautas e serviços: priscila.medeiros1@gmail.com
Os registros audiovisuais são de Lucas Melo. Contato: contatoinstintocriativo@gmail.com



